Heb 11:1 Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem.

Ao proferir seu discurso em Fullton, no dia 5 de março de 1946, após o término da II Guerra Mundial, no estado de Missouri nos Estados Unidos, Sir Wiston Churchill celebrizou a espressão “Cortina de Ferro” – já anteriormente utilizada por Joseph Goebbels, Lutz Schwerin Von Krosigk e por ele mesmo – utilizando-a para designar a política adotada pela antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)  e seus estados-satélites de implantação do sistema socialista de governo.

A política da “Cortina de Ferro” consistia em separar a União Soviética e seus países associados de todos os demais. Os países pertencentes a este bloco isolaram-se, então, do restante do mundo. Assim ficaram de um lado a União Soviética com seus aliados; do outro os Estados Unidos e todo o restante do mundo ocidental. Iniciava-se ali uma disputa pelo poder bélico, uma corrida armamentista que culminaria na Guerra Fria. Isolando sua população do mundo capitalista o bloco Soviético criou uma sociedade alienada e carente de valores sociais saudáveis. Ao impor a tutela do estado em cada aspecto da vida de seus cidadãos a União Soviética os privava não somente de sua individualidade como também de direitos que viriam a ser sacramentados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos que foi adotada pela ONU no dia 10 de dezembro de 1948.

Ao desenvolver seu raciocínio expondo aos judeus o sacrifício de Cristo como auto-suficiente para libertá-los do jugo da Lei e levá-los à redenção não através de atos litúrgicos e sacrifícios; mas sim através da fé, o autor da epístola aos Hebreus nos explica que a mesma é “… o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se vêem. (Hb 11:1)”. E ele continua, apresentando o argumento de que a fé de Noé salvou a ele e sua família, garantindo assim a perpetuação da raça humana; de que ela foi o agente motivador dos patriarcas em sua jornada rumo ao estabelecimento de um povo, de que foi ela a responsável pela libertação dos Israelitas do Egito. Ainda segundo ele a fé operou a entrada na terra prometida e estabeleceu Israel como nação diante de nações mais fortes e poderosas do que ela. Ele concluí também através de declarações dos patriarcas nas quais se afirmam como “ estrangeiros e peregrinos na terra” que os mesmos ansiavam por uma “pátria melhor, isto é, a celestial”. Todas as suas explanações e conclusões a respeito da fé redundam em uma única certeza: a de que a fé nos levará a uma pátria não só melhor, mas plena em excelência; a uma vida não somente mais digna, mas livre de todo medo, culpa, pecado, repleta da verdadeira paz e eterna. Jesus ao efetuar seus milagres enaltecia sempre um mesmo ponto: “…a tua fé te salvou.”. Por quê? Qual motivo levaria Jesus a misturar a cura de enfermidades com a salvação? Seria a palavra “salvação” um eufemismo para a cura de doenças? Não. A palavra “salvação” usada por Jesus em todas as ocasiões – “σῶς” (sōs̄) -, no original designa exatamente a salvação não das agruras terrenas e físicas, mas sim a salvação espiritual, que concederá a seu beneficiado a tão almejada vida eterna. Também o apóstolo Paulo ao se utilizar da expressão “o justo viverá pela fé” evoca não a vida terrena, tampouco um estilo de vida, mas seu enfoque se dá também no âmbito espiritual da vida – “ζάω”( zaō) – eterna. Ou seja, a fé de acordo com os autores bíblicos é instrumento de salvação e, partindo ela desse princípio, abrange todos os aspectos da vida terrena e encerra-se nela e com ela ao cumprir seu papel, e não o contrário.

Hoje vivemos não somente a banalização do termo fé como também, e principalmente, sua deturpação. A fé é utilizada abertamente e na maioria das vezes não como instrumento de salvação, mas como instrumento de prosperidade material e alienação. É empregada em rituais místicos que são tomados como manifestações inovadoras de fé. Sua aplicação desregrada extrapola em muito os princípios bíblicos gerando confusão no seu entendimento, aberrações em sua aplicação e desvio de seu verdadeiro e salutar objetivo em detrimento de atitudes esquizofrênicas e superficiais.

A utilização da fé pelos agentes neopentecostais que agressivamente incutem a mórbida teologia da prosperidade; as lúdicas e falaciosas ministrações de louvor que pululam Brasil afora sem o mínimo respaldo bíblico, ensinando a nossos jovens uma espécie de alienação transcedental – ganhar o Brasil para Jesus quando o a Bíblia nos diz que o mundo jaz no maligno? – privando-os de um senso real não só dos conceitos bíblicos como da vida em geral. Atos proféticos onde pastores reúnem seus rebanhos para marcar territórios das formas mais estranhas possíveis: enterrando bíblias, objetos, fazendo caminhadas intermináveis de oração com as mãos para o alto e mesmo urinando em lugares específicos – isso mesmo, urinando – com o intuito de expulsar das dependências das cidades as hostes demoníacas que habitam seus territórios. A fé empregada como instrumento político: pastores estabelecendo alianças espúrias, utilizando-se do púlpito para promover candidatos de acordo com seus interesses; obrigando sutilmente seus membros a votarem em candidato X ou Y através de ameaças veladas. A igreja enterrada no nepotismo eclesiástico, onde pastores perpetuam seu poder através de seus filhos, genros, sobrinhos e além; tenham eles chamado ministerial ou não, fazendo com que a igreja sofra as conseqüências de terem pessoas incapacitadas para cargos de relevância apenas para satisfazer os interesses pessoais de quem as administra. A venda camuflada de cargos, a administração financeira obscura, e muito mais.

Essas posições superficiais, tendenciosas e egoístas em relação ao uso da fé me trazem a memória os tempos da Cortina de Ferro. Da mesma forma que o bloco comunista alienava sua população deturpando conceitos a respeito do mundo capitalista e os privando de uma visão isenta e honesta do mundo como um todo, assim os manipuladores da fé iludem toda uma geração que ansiosa por mudanças e cada vez mais afligida pelas vicissitudes e exigências da vida atual, se entrega de corpo e alma a tais ilusionismos na vã esperança de encontrar a verdadeira paz e se livrar de seus problemas imediatos. A fé contemporânea é manipulada, subvertida, explorada e tratada como artigo. Ela perece em essência nas mãos hábeis de ilusionistas egocêntricos, gananciosos e heréticos. Ela é utilizada como uma cortina para separar o cristão do mundo real, para colocá-lo à margem de um mundo ao qual ele pertence e no qual ele tem que não somente viver como tomar parte. Ela tem sido usada para seduzir, minar e alienar cristãos de todas as formas imagináveis. Quando não o separa do mundo espiritual através de conceitos doutrinários que privilegiam a busca pela materialidade, o separa do mundo real por meio da alienação mística e carente de, no mínimo, bom senso. Em ambos os casos o cristão perde e a fé é corrompida e denegrida. Essa falsa fé – a Cortina de Fé – desce sutil e insidiosa, cumprindo exatamente o papel que lhe é destinado: alienar o cristão de seu objetivo, separá-lo de sua razão e de seu senso crítico para, assim, transformá-lo não num ser livre em Cristo Jesus como todo cristão deve ser, mas num inofensivo e frágil pseudo-adorador que privado de sua lógica se contenta com migalhas quando poderia estar se refestelando num banquete. Ela serve a um sistema corrupto, a um sistema falido quando confrontado com a verdadeira fé, que é aquela que nos conduz à salvação. É hora de descerrarmos essa cortina. É hora de trazermos a fé à razão, para que nos desvencilhemos de uma vez por todas das falácias e engodos que tais falsos profetas nos impingem diariamente. É hora de seguir o exemplo de Paulo e combater o bom combate, para que possamos terminar com louvor nossa carreira e guardarmos a real, firme e insubstituível, verdadeira fé.

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